Pular para o conteúdo
Voa Mulher
Desejo e Criação

O medo de dar certo: por que ser promissora é mais confortável do que chegar lá?

Existe uma segurança silenciosa em saber que somos capazes de realizar grandes coisas, desde que nunca precisemos descobrir o que acontece quando finalmente as realizamos.

Por Valeria Effgen05 de novembro de 2026

Falamos muito sobre o medo do fracasso, sobre as inseguranças que nos impedem de tentar e sobre a dificuldade de lidar com a possibilidade de não conseguir. Mas existe outro medo, menos evidente e talvez mais difícil de reconhecer: o medo de dar certo. Aquele que aparece quando uma oportunidade começa a se tornar concreta, quando uma ideia ganha forma ou quando percebemos que estamos mais próximas de realizar algo que desejamos há muito tempo.

À primeira vista, parece contraditório. Por que alguém teria medo de conquistar aquilo que tanto deseja? Talvez porque o sucesso não represente apenas a realização de um sonho. Ele também pode exigir mudanças na nossa identidade, nas relações que construímos e na maneira como passamos a ocupar o mundo.

Enquanto somos promissoras, vivemos em um território relativamente protegido. Temos talento, ideias, projetos, capacidades reconhecidas e um futuro cheio de possibilidades. Podemos imaginar diferentes versões de nós mesmas, acreditar no que seríamos capazes de construir e encontrar algum conforto na ideia de que ainda não chegou o momento certo. O potencial permanece intacto porque ainda não foi inteiramente colocado à prova.

Realizar, por outro lado, significa transformar possibilidades em escolhas concretas. Significa assumir uma direção e, inevitavelmente, abrir mão de outras. Significa mostrar nosso trabalho, aceitar avaliações, enfrentar responsabilidades e conviver com a distância entre aquilo que imaginávamos e aquilo que conseguimos efetivamente construir.

Ser promissora nos permite preservar a imagem de quem poderíamos ser. Chegar lá exige coragem para conhecer quem realmente somos durante o processo.

Talvez por isso tantas mulheres capazes permaneçam durante anos se preparando. Fazem mais um curso, aperfeiçoam uma ideia, aguardam melhores condições, procuram mais segurança ou se convencem de que ainda falta alguma coisa. Nem sempre se trata de procrastinação. Muitas vezes, existe um desejo legítimo de fazer bem, acompanhado de uma dificuldade profunda em aceitar a exposição e a incerteza que acompanham qualquer realização.

Há ainda uma dimensão social importante. Para muitas mulheres, crescer profissionalmente, conquistar independência ou assumir maior visibilidade pode significar desafiar expectativas antigas sobre disponibilidade, maternidade, casamento, cuidado e pertencimento. O sucesso pode alterar o equilíbrio das relações e provocar julgamentos que nem sempre surgem quando permanecemos discretamente no campo das possibilidades.

Nesse contexto, o medo de dar certo não é necessariamente irracional. Algumas mudanças têm custos reais. A questão é perceber quando estamos avaliando esses custos com consciência e quando estamos usando esses argumentos para justificar uma permanência que já não corresponde aos nossos desejos.

Também existe uma diferença entre querer realizar algo e estar disposta a viver a realidade dessa realização. Podemos desejar escrever um livro, criar uma empresa, assumir uma posição de liderança ou dar voz às nossas ideias, mas hesitar diante da exposição, da responsabilidade e das decisões que essas conquistas exigem. O sonho nos oferece liberdade para imaginar. A concretização exige compromisso com uma realidade imperfeita.

E talvez seja essa imperfeição que mais nos desafia.

Enquanto um projeto existe apenas dentro de nós, ele pode ser extraordinário. Não enfrenta críticas, limitações, imprevistos ou comparações. Quando finalmente ganha vida, torna-se vulnerável. Pode não corresponder inteiramente às nossas expectativas. Pode precisar de mudanças. Pode revelar capacidades que ainda precisamos desenvolver. Mas também pode crescer, transformar-se e abrir caminhos que nunca seríamos capazes de imaginar enquanto permanecêssemos apenas planejando.

Existe um preço em tentar e não conseguir. Mas existe também um preço, menos visível, em passar a vida protegendo o próprio potencial da possibilidade de ser testado.

Talvez a maturidade nos convide a rever a relação que estabelecemos com a nossa imagem. A deixar de precisar ser sempre aquela mulher cheia de possibilidades e nos permitir ser, finalmente, uma mulher em movimento, com conquistas concretas, erros, limitações e aprendizados.

Isso não significa transformar todos os talentos em negócios, procurar reconhecimento constante ou medir o valor da vida pela quantidade de objetivos alcançados. Nem toda possibilidade precisa se tornar realidade. Temos o direito de mudar de ideia, redefinir ambições e escolher caminhos menos visíveis. A liberdade também está em decidir conscientemente o que não queremos realizar.

O problema começa quando continuamos alimentando sonhos que são importantes para nós, mas evitamos sistematicamente as escolhas necessárias para lhes dar existência.

É nesse momento que vale fazer uma pergunta desconfortável: estamos realmente esperando melhores condições ou estamos preservando uma versão idealizada de nós mesmas que nunca precisará enfrentar o mundo real?

Talvez nunca exista um momento em que nos sintamos suficientemente prontas. Talvez o reconhecimento das nossas capacidades não venha antes da ação, mas seja construído enquanto experimentamos, falhamos, corrigimos e avançamos.

Porque chegar lá não significa alcançar uma versão definitiva de nós mesmas. Significa aceitar que a realização também é um processo de descoberta e que o sucesso não elimina dúvidas, desafios ou vulnerabilidades.

Podemos passar a vida inteira sendo mulheres com um futuro extraordinário pela frente. Ou podemos começar a construir uma vida em que algumas dessas possibilidades finalmente tenham lugar no presente.

No fim, talvez o maior risco não seja descobrir que não somos capazes de realizar tudo aquilo que imaginamos. Talvez seja chegar a um momento da vida e perceber que nunca permitimos que nossas capacidades fossem verdadeiramente experimentadas.

Há sonhos que precisam de tempo para amadurecer. Mas há outros que já amadureceram e continuam apenas esperando que tenhamos coragem de deixar de prometer nossa presença nele.

A revista chega quinzenalmente

Deixe seu e-mail e a próxima edição encontra você, sem que precise voltar aqui procurar.

Ao assinar, você concorda com nossa Política de Privacidade.