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Cotidiano · Retratos

Zica Assis e a fábrica de autoestima que começou diante de um espelho

A história dela é, antes de tudo, uma história sobre conhecer-se a fundo.

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Valeria Effgen
Por Valeria Effgen01 de junho de 2026 · 13 min de leitura
Zica Assis e a fábrica de autoestima que começou diante de um espelho

Há mulheres que descobrem o próprio caminho olhando para fora, atrás de modelos prontos, fórmulas testadas e referências que já deram certo para outras pessoas. Zica Assis descobriu o dela olhando para o espelho. Diante do reflexo dos próprios cachos, ela encontrou ao mesmo tempo uma pergunta incômoda e uma vocação que a acompanharia pela vida inteira. A pergunta era simples e, justamente por isso, poderosa: por que não existia, em todo o mercado brasileiro, um produto pensado para o cabelo que ela tinha?

Essa cena resume bem o que veremos ao longo desta história. O Instituto Beleza Natural, uma das maiores redes de beleza do país, não começou em uma sala de reuniões nem em um plano de negócios sofisticado. Começou no reconhecimento, demorado e corajoso, de uma identidade que o mundo ao redor insistia em apagar. Antes de transformar um mercado inteiro, Zica precisou fazer as pazes com a mulher que via no espelho. Esse é o fio que conecta cada capítulo da trajetória dela ao primeiro pilar do empoderamento feminino, o autoconhecimento.

A menina que aprendeu cedo a sustentar a própria vida

Heloísa Helena Belém de Assis nasceu em 1960, no Rio de Janeiro, na comunidade do Catumbi, perto da Tijuca. Foi a sétima de treze irmãos, filha de uma lavadeira e de um pai que se virava em trabalhos avulsos. A vida apertada não era exceção na vizinhança, era a regra do bairro inteiro, e a sobrevivência da família dependia de muitas mãos. As de Zica entraram em jogo cedo. Aos nove anos, ela já trabalhava como babá, empregada doméstica e faxineira, e ainda vendia produtos de porta em porta para complementar o que faltava em casa.

É tentador contar essa parte da história como um cenário de privação, mas seria injusto com a protagonista. O que se desenha aqui não é uma menina diminuída pelas circunstâncias, e sim uma jovem que aprendeu, muito antes da idade adulta, a observar pessoas, a entender necessidades, a negociar, a cumprir o combinado e a fazer um trabalho bem-feito. Tudo aquilo que mais tarde seria descrito como faro empreendedor já estava ali, em formação, dentro de uma rotina que não tinha nada de glamourosa. As habilidades que constroem um negócio raramente nascem em um pódio. Costumam nascer no cotidiano, naquilo que a gente faz por necessidade muito antes de fazer por escolha.

Foi também nessa fase que apareceu o primeiro atrito entre quem Zica era e o que esperavam que ela fosse. Algumas patroas exigiam que ela mantivesse o cabelo curto, como se os cachos fossem um problema a ser contido. A mensagem, dita ou subentendida, era sempre a mesma: o seu cabelo, do jeito que ele é, não cabe aqui. Essa pequena violência cotidiana, repetida tantas vezes ao longo dos anos, plantou em Zica uma inquietação que ela ainda não sabia nomear, mas que jamais conseguiu ignorar.

A inconformidade que virou pergunta de mercado

Aos 21 anos, movida por essa inquietação, Zica fez um curso de cabeleireira. A motivação não era abrir um salão. Era entender, de uma vez por todas, a natureza do próprio cabelo, para encontrar um jeito de cuidar dele que não passasse por se conformar com o que o mercado oferecia. O que ela descobriu no curso talvez tenha sido o ponto de virada de toda a sua história: não havia o que aprender sobre cabelos crespos e cacheados. A formação simplesmente não tratava do assunto. A única orientação disponível para quem tinha o cabelo como o dela cabia em duas palavras, alisar ou cortar.

Vale a pena parar nessa constatação por um instante, porque ela diz muito sobre o Brasil daquela época. Toda uma indústria, todo um conhecimento técnico, todo um padrão de beleza tinham sido construídos como se o cabelo crespo não existisse, ou como se ele fosse um defeito a ser corrigido. Para a maioria das mulheres, a resposta natural a esse vazio era a adaptação, alisar para pertencer. Zica fez o movimento contrário. Em vez de aceitar que o problema era o cabelo dela, ela passou a desconfiar que o problema era a ausência de uma solução. Essa inversão, sutil na aparência e profunda na prática, é o coração de tudo o que veio depois.

A partir dessa desconfiança, começou a parte mais difícil e mais silenciosa da jornada. Zica decidiu desenvolver, na própria casa, um produto capaz de cuidar dos cachos sem alisá-los, devolvendo definição, brilho e maciez aos fios. Não havia laboratório, não havia financiamento, não havia garantia nenhuma de que aquilo daria certo. Havia uma cozinha, muita persistência e uma convicção que se sustentava sozinha, porque o mercado inteiro dizia que aquele caminho não fazia sentido comercial. Foram aproximadamente dez anos de testes, misturas, frustrações e recomeços até a fórmula chegar a um resultado que ela considerasse à altura do que imaginava.

Dez anos. É importante dizer esse número com calma, porque ele costuma passar batido nas versões resumidas dessa história. Dez anos é mais do que um detalhe biográfico, é uma medida de caráter. São dez anos sustentando uma aposta que ninguém mais validava, sem aplausos, sem retorno financeiro, sem a certeza de que valeria a pena. Quase tudo na vida adulta conspira para que a gente desista de um projeto assim muito antes do décimo ano. A pergunta que fica é: o que sustentou Zica por tanto tempo? A resposta nos leva direto ao pilar que dá sentido a esta coluna.

A fórmula, o salão no quintal e as filas que se formaram

A persistência encontrou o seu desfecho no início dos anos 1990, quando Zica chegou à formulação que ficaria conhecida como Super-Relaxante. Em vez de alisar, o produto controlava o volume dos fios crespos e ondulados, deixando-os mais maleáveis, brilhantes e definidos, sem desfazer a textura natural do cabelo. Era exatamente o que faltava no mercado, e era exatamente o que Zica sempre quis para si mesma. A primeira a usar a fórmula com orgulho foi a própria criadora, e logo as pessoas da comunidade começaram a procurá-la para ter o mesmo resultado.

O Instituto Beleza Natural nasceu oficialmente em 1993, com um pequeno salão montado no quintal da casa, na região da Tijuca, na zona norte do Rio. O capital inicial veio de um empréstimo do irmão, que trabalhava como gerente de uma rede de lanchonetes e tinha uma reserva modesta de mil e duzentos reais guardada. Com esse valor e a fórmula testada por uma década, Zica abriu as portas. O que aconteceu em seguida confirmou tudo o que ela vinha apostando sozinha por tanto tempo. As filas começaram a se formar, a demanda cresceu rápido, e a equipe chegou a trabalhar madrugada adentro para dar conta de atender quem chegava.

Essas filas merecem atenção, porque elas eram a prova viva de uma carência que o mercado tradicional nunca tinha enxergado. Milhares de mulheres queriam, havia muito tempo, exatamente o que Zica passou dez anos construindo, e simplesmente não tinham onde encontrar. O sucesso imediato do salão não foi sorte nem acaso. Foi o encontro entre uma necessidade reprimida e a única pessoa que tinha tido a coragem de levá-la a sério. Quando uma solução nasce de uma dor verdadeira, vivida na própria pele, ela tende a reconhecer a sua cliente antes mesmo de ser apresentada a ela.

O que ela vendia não era creme

Aqui chegamos a um dos pontos mais reveladores de toda a trajetória, e a uma lição que vale para qualquer mulher que sonha em empreender. Em algum momento, Zica percebeu que o seu negócio não vendia cosméticos. A empresa que ela fundou passou a se definir como uma fábrica de autoestima, e essa definição não era uma peça de marketing bonita. Era a descrição mais precisa do que de fato acontecia dentro de cada salão.

Para entender o tamanho dessa percepção, é preciso lembrar o contexto. Falar sobre o cabelo de mulheres negras, no Brasil, é mexer em uma ferida que durante gerações impactou a autoestima de muita gente. Por isso, quando uma mulher saía do Beleza Natural com os cachos definidos e bonitos, o que mudava nela ia muito além da aparência. Mudava a forma como ela se via, como ocupava os espaços, como se apresentava ao mundo. Zica costuma dizer que a sua história de empreendedorismo nasce do orgulho do próprio cabelo, e essa frase carrega uma virada de chave que poucas empreendedoras conseguem fazer com tanta clareza. Ela entendeu que estava devolvendo dignidade, não apenas vendendo um serviço de beleza.

Essa compreensão transformou completamente o jeito de conduzir o negócio. Um produto pode ser copiado, um preço pode ser igualado, uma técnica pode ser ensinada. Mas a relação de confiança e pertencimento que se constrói quando uma cliente se sente, finalmente, reconhecida em sua própria identidade, essa relação não se copia. Foi ela que sustentou o crescimento da empresa, atendimento após atendimento, indicação após indicação. Quem compreende o que de fato entrega ao mundo enxerga o próprio negócio em uma escala que a concorrência costuma demorar a alcançar.

A virada que veio depois dos 40

A coluna desta edição reúne mulheres que venceram depois dos 40, e a trajetória de Zica se encaixa nesse recorte de um jeito muito particular. Ela fundou o Beleza Natural por volta dos 33 anos, mas foi na década seguinte, já passados os 40, que o negócio deixou de ser um salão bem-sucedido para se tornar uma referência nacional. A expansão mais ousada, o reconhecimento público e a consolidação como uma das maiores empresas de beleza do país pertencem à fase madura da vida dela. Isso desmonta, com fatos, a ideia de que existe um prazo de validade para a ambição feminina.

Ao longo dos anos 2000, a empresa abriu a sua primeira fábrica própria, levou os institutos para outros estados e chegou, inclusive, ao Espírito Santo, antes de seguir crescendo Brasil afora. Em 2005, o negócio passou a integrar a rede de empreendedores apoiados por uma organização internacional de fomento ao empreendedorismo, e mais tarde recebeu um aporte expressivo de um fundo de investimentos, o que permitiu ultrapassar a marca de cem unidades. Hoje, a rede atende mais de cem mil clientes por mês, emprega milhares de pessoas e tem uma característica que diz tudo sobre o seu propósito: boa parte dos colaboradores são ex-clientes, mulheres que primeiro recuperaram a própria autoestima e depois encontraram ali uma porta de entrada para o mercado de trabalho.

O reconhecimento veio na mesma proporção do impacto social. Zica foi eleita empreendedora do ano por instituições de peso, recebeu prêmios importantes ao longo da década e, em 2013, entrou para a lista das dez mulheres de negócios mais poderosas do Brasil, publicada por uma das revistas econômicas mais influentes do mundo. Repare na linha do tempo. Aos nove anos, trabalhava como faxineira em casas que pediam para ela esconder o próprio cabelo. Aos cinquenta e poucos, figurava entre as empresárias mais poderosas do país, justamente por ter recusado essa ordem. A vingança mais elegante contra um mundo que pede para você se diminuir é prosperar sendo inteiramente quem você é.

Autoconhecimento, o motor invisível de tudo

Quando observamos essa história pela lente dos 8 Pilares do Empoderamento Feminino, fica evidente que o autoconhecimento foi o motor invisível de cada decisão importante. Não como um conceito abstrato, e sim como uma ferramenta prática que operou em dois movimentos muito concretos ao longo de toda a jornada.

O primeiro movimento foi a resiliência. Conhecer a si mesma deu a Zica a estrutura interna para sustentar dez anos de testes sem nenhuma validação externa. Quem não sabe quem é desiste no primeiro mercado que diz não. Quem se conhece consegue distinguir entre uma ideia ruim e uma ideia que apenas ainda não foi compreendida. Zica sabia que o problema não estava no cabelo dela, e essa certeza, ancorada na própria identidade, foi o que a manteve em pé durante a longa travessia silenciosa entre a inquietação e a fórmula. O autoconhecimento, nesse caso, funcionou como raiz. Foi ele que segurou a árvore quando o vento soprava em sentido contrário.

O segundo movimento foi a sensibilidade. Foi por se conhecer profundamente que Zica conseguiu enxergar que o seu negócio não vendia creme, e sim autoestima e dignidade para milhões de mulheres. Essa percepção só é possível para quem já fez a própria travessia interna, porque ninguém consegue oferecer ao mundo uma cura que não experimentou em si. A dor de não se ver representada, vivida na pele desde a infância, foi exatamente o que permitiu a Zica reconhecer essa mesma dor nas suas clientes e responder a ela com a precisão de quem fala a partir da experiência, não da teoria. O autoconhecimento, aqui, funcionou como bússola. Foi ele que apontou para o verdadeiro produto, muito além do frasco.

A lição que a Zica nos deixa é generosa e ao mesmo tempo desafiadora. A sua maior vantagem competitiva talvez não esteja em uma habilidade técnica que você ainda precisa adquirir, mas em algo que você já carrega e que talvez tenha aprendido a esconder. Aquilo que o mundo pediu para você corrigir, encurtar ou disfarçar pode ser, justamente, o ponto de partida de um negócio que ninguém mais conseguiria construir do seu jeito.

Exercício prático: A Solução da Minha Identidade

Toda história inspiradora cumpre o seu papel quando deixa de ser sobre a protagonista e passa a ser sobre você. Por isso, antes de fechar esta leitura, vale transformar a trajetória da Zica em movimento na sua própria vida. Pegue um caderno, separe um tempo sem pressa e respire fundo. O exercício a seguir é simples na estrutura e potente no efeito, e funciona melhor quando você se permite ser honesta com cada resposta.

Comece olhando para uma característica sua, uma dor pessoal ou uma vivência que a sociedade, em algum momento, desvalorizou, corrigiu ou ignorou. Pode ser algo ligado à sua aparência, à sua origem, ao seu jeito de ser, a uma fase difícil que você atravessou ou a uma necessidade que você teve e nunca encontrou ninguém para resolver direito. Escreva essa vivência com as suas palavras, sem suavizar. O cabelo que mandavam esconder foi o ponto de partida da Zica. Qual é o seu?

Em seguida, faça uma pergunta de virada, a mesma que a Zica fez diante do espelho. E se o problema nunca tiver sido você, e sim a ausência de uma solução pensada para gente como você? Anote quantas outras mulheres provavelmente passam pela mesma vivência que você descreveu acima. Quem são elas, o que sentem, do que precisam e o que hoje elas fazem, na falta de uma alternativa melhor. Esse mapa, ainda que rascunhado, já é o esboço de um mercado.

Por último, conecte os dois pontos. Escreva, de forma concreta, como você poderia transformar essa exata vivência única em uma solução para as pessoas que sofrem com o mesmo que você um dia superou. Pode ser um produto, um serviço, um conteúdo, um espaço, uma comunidade. Não se cobre uma ideia perfeita ou definitiva agora. Cobre-se apenas o primeiro rascunho, sabendo que a fórmula da Zica também levou tempo para ficar pronta. O que importa, neste momento, é perceber que a sua história pessoal não é um obstáculo a ser contornado para empreender. Ela pode ser a sua matéria-prima mais valiosa.

Antes de virar a página

A trajetória de Zica Assis não é um conto de fadas, e ela ficaria provavelmente desconfortável se a gente a apresentasse assim. É uma história feita de trabalho duro, de uma década de testes sem garantia, de um empréstimo modesto entre irmãos e de uma teimosa recusa em aceitar que o seu cabelo não cabia no mundo. Tudo isso construído por uma mulher que só foi colher os frutos maiores depois dos 40, no tempo dela, sem pedir licença ao calendário.

Se há algo para guardar desta leitura, talvez seja isto. O autoconhecimento não é um luxo de quem tem tempo para se contemplar. É a ferramenta mais concreta que existe para quem quer construir algo verdadeiro, porque é ele que revela qual dor você está realmente preparada para curar no mundo. Zica olhou para o próprio espelho e enxergou, ao mesmo tempo, a si mesma e milhões de mulheres. Você também tem um espelho. A pergunta que fica, gentil e firme, é o que você está pronta para reconhecer ao olhar para o seu.