Existe um tipo de reconhecimento entre mulheres que dispensa explicação. Uma diz meia frase, para no meio, e a outra já entendeu, porque atravessa a mesma coisa e também não sabe como chamá-la. É um acordo silencioso sobre uma experiência que as duas conhecem por dentro e nenhuma consegue apontar por fora. Falta a palavra, e a falta vira constrangimento, como se o problema fosse a incapacidade de explicar, e não a ausência do termo que tornaria a explicação possível.
Costuma-se acreditar que a língua é completa. Que, se uma coisa existe de verdade e importa, ela já tem nome, porque alguém, em algum momento, teria se dado ao trabalho de nomeá-la. Dessa crença nasce uma conclusão perversa: quando não há palavra para o que se sente, o que se sente não deve ser sério. Vira frescura, exagero, fase, hormônio. A ausência do nome é lida como prova de que a dor não merecia um.
Mas a língua não é completa e, menos ainda, neutra. Toda palavra é um acordo coletivo. Alguém viveu, muitos reconheceram, o nome pegou e passou a circular. O que ficou de fora desse processo não foi o que era menos real, foi o que era menos visto. E boa parte da experiência feminina se deu exatamente ali, no lugar sem testemunha: a mulher que segura a casa inteira sem que ninguém registre o peso, a que sustenta um casamento por fora muito depois de ele ter acabado por dentro dela, a que se cansa de uma vida certa no papel e não encontra a quem descrever esse cansaço sem soar ingrata. O que se vive sozinha não vira acordo coletivo. O que não vira acordo coletivo não ganha nome.
O que ficou de fora desse processo não foi o que era menos real, foi o que era menos visto.
O silêncio, porém, não fica vazio por muito tempo. No lugar onde falta a palavra certa entram as palavras erradas, as que já estavam à mão. A mulher que não sabe nomear o próprio esgotamento o chama de fraqueza. A que sente a perda de algo que ainda não terminou se acusa de ingratidão. A que percebe ter feito tudo na ordem trocada se declara incompetente. O apelido errado faz um estrago que o silêncio não faria, porque muda o endereço do problema. Sem nome, a experiência parecia defeito de fábrica. Com o nome errado, vira sentença sobre o caráter de quem sente.
No lugar onde falta a palavra certa entram as palavras erradas, as que já estavam à mão.
Nomear corretamente, então, não é enfeite nem exercício de estilo. É o primeiro movimento de coerência possível. Uma experiência sem nome fica no território do caráter, onde tudo é falha de quem sente. Uma experiência nomeada passa para o território da informação, onde já se pode trabalhar. Chamar um cansaço de fadiga operacional, e não de fraqueza, muda o que se faz com ele no dia seguinte. A palavra certa não resolve sozinha, mas devolve à mulher a chance de olhar para o que sente como algo fora do lugar, e não como algo errado nela.
A palavra certa não resolve sozinha, mas devolve à mulher a chance de olhar para o que sente como algo fora do lugar, e não como algo errado nela.
É por isso que faltam palavras, e é por isso que vale a pena cunhá-las. A língua que herdamos foi escrita sobretudo por quem não vivia o que muitas de nós vivemos, num tempo em que a vida interior da mulher não era assunto digno de vocabulário. Os buracos que ela deixou não são aleatórios. Concentram-se justamente onde a experiência feminina foi mais funda e menos vista. Preencher esses buracos, uma palavra de cada vez, é devolver nome a quem sempre teve a dor e nunca teve o termo. Toda vez que uma mulher troca o "há algo errado comigo" pelo "há algo fora do lugar que eu posso ajustar", a coerência que faltava começa a se refazer.
