Algumas empresas nascem de uma planilha. A Alergoshop nasceu de uma madrugada, ou melhor, de muitas madrugadas seguidas, em que uma mãe enfermeira acordava para dar banho morno na filha pequena, passar hidratante na pele ferida e esperar que o sono finalmente voltasse para as duas. Sarah Lazaretti conhecia bem aquele corpo que não conseguia descansar, porque conhecia o corpo humano por profissão e conhecia aquela menina por amor. O que ela demorou a aceitar foi a ausência. No Brasil do começo dos anos 1990, simplesmente não existiam à venda os produtos capazes de dar alívio à filha.
Essa é a cena que sustenta toda a história que vamos contar aqui. A primeira empresa brasileira dedicada a produtos hipoalergênicos não surgiu de uma análise de mercado nem de uma oportunidade identificada de fora para dentro. Surgiu de dentro de uma casa, de uma necessidade concreta e diária, vivida por uma mulher que tinha exatamente as duas coisas necessárias para enxergar a solução: o conhecimento técnico de quem trabalhava com saúde e a urgência de quem via a filha sofrer. A trajetória de Sarah é, por isso, um caso quase perfeito do primeiro pilar do empoderamento feminino, o autoconhecimento, entendido como a capacidade de reconhecer e reunir as próprias partes para criar algo que só você poderia criar.
A vocação do cuidado, escolhida cedo Sarah Lazaretti nasceu em 1959, em Fernandópolis, no interior de São Paulo, e cresceu na capital, na zona oeste da cidade, como uma das filhas do meio em uma casa de seis irmãs. Estudou em bons colégios e, na hora de escolher o caminho profissional, optou pela enfermagem na Universidade de São Paulo, onde se especializou como enfermeira obstétrica. Trabalhou em diversos hospitais ao longo dos anos, acompanhando partos, cuidando de pacientes, lidando de perto com aquilo que a maioria das pessoas só encontra em momentos de fragilidade.
Vale registrar o que significa essa escolha, porque ela explica muito do que veio depois. A enfermagem não é uma profissão que se exerce de longe. É uma prática de atenção minuciosa ao corpo do outro, de leitura de sintomas, de presença nas horas difíceis. Quem passa anos nesse ofício desenvolve um tipo específico de inteligência, a de observar sinais que escapam ao olhar comum e traduzir desconforto em conduta. Sarah construiu essa inteligência durante toda a vida adulta, sem imaginar que um dia ela seria aplicada não a um paciente em um leito, mas a um mercado inteiro que ainda não existia.
Antes de ser empresária, portanto, Sarah já era uma profissional consolidada, com formação sólida e uma carreira estável em uma área respeitada. Esse detalhe costuma ser tratado como pano de fundo, mas ele é parte essencial da coragem que a história exige mais adiante. Ninguém abandona com leveza aquilo que construiu ao longo de décadas. A estabilidade tem um peso real, e foi justamente esse peso que tornou tão significativa a decisão que Sarah tomaria depois dos quarenta.
Quando o cuidado bate à porta de casa A virada começou quando a filha, Marina, ainda era muito pequena. Por volta de um ano de idade, surgiram os primeiros sinais de alergias respiratórias, asma e broncoespasmo, que tiravam o sono da menina e da mãe. Pouco tempo depois veio a dermatite atópica, que cobria a pele da criança de feridas e tornava cada noite uma negociação difícil com o desconforto. Marina reagia a uma lista extensa de coisas comuns do cotidiano, de corantes artificiais presentes em alimentos a tecidos, poeira, ácaros e certos metais. O mundo doméstico, que deveria ser o lugar mais seguro para uma criança, estava cheio de gatilhos invisíveis.
Os médicos que acompanhavam Marina sabiam o que recomendar. A orientação era usar produtos hipoalergênicos, hidratantes e itens de higiene livres dos compostos que disparavam as crises. O problema não estava no diagnóstico, que era correto, e sim no que vinha depois dele. Sarah saía dos consultórios com a recomendação na mão e descobria, prateleira após prateleira, que aquilo simplesmente não estava disponível no Brasil. O que existia lá fora não chegava aqui, ou chegava a preços altíssimos, por caminhos incertos.
Se ela, com formação em saúde e acesso a informação, tinha tanta dificuldade, quantas outras mães estariam exatamente na mesma situação, sem saber sequer por onde começar?
Durante um tempo, a solução foi improvisada e exaustiva. Sarah recorria a produtos importados, caros e difíceis de encontrar, e muitas vezes dependia da boa vontade de amigos que viajavam para o exterior e traziam na mala o que ela precisava. Imagine a fragilidade dessa logística para uma mãe que lida com crises imprevisíveis. O alívio da filha ficava refém de uma viagem alheia, de uma alfândega, de uma data que ninguém controlava. Foi vivendo essa angústia repetidas vezes que Sarah começou a transformar uma dor particular em uma pergunta de outra ordem: se ela, com tanto preparo, tinha tanta dificuldade, quantas outras famílias estariam vivendo o mesmo no silêncio das próprias casas?
O mercado que ninguém tinha enxergado Essa pergunta mudou tudo, porque ela deslocou o olhar de Sarah do problema individual para o problema coletivo. A carência que afligia a casa dela não era um azar isolado. Era a evidência de um mercado inteiro que a indústria brasileira tinha deixado de lado. Milhares de famílias enfrentavam a mesma rotina de noites mal dormidas e a mesma busca frustrante por produtos que não existiam por aqui. Faltava alguém disposto a levar essa necessidade a sério e a tratá-la com rigor.
Sarah não tomou essa decisão sozinha, e isso faz parte da beleza da história. Ela se uniu à irmã, Julinha Lazaretti, e juntas as duas começaram a estudar o terreno com a seriedade de quem vinha da área de saúde e não toleraria amadorismo. Conversaram com médicos alergistas, pesquisaram o que já existia nos Estados Unidos e no Brasil, mapearam o que poderia atender àquele público de forma ética e segura. A pesquisa não era um detalhe burocrático, era o coração do projeto. Tratava-se de pessoas com a saúde sensibilizada, e qualquer produto recomendado precisava ser confiável de verdade.
Em 1993, com a filha ainda pequena, Sarah deu o passo que define toda a sua trajetória. Abriu, em sociedade com a irmã, a primeira loja da Alergoshop, em São Paulo, voltada inteiramente para produtos destinados a pessoas alérgicas. No começo, o negócio funcionava como uma importadora especializada, trazendo do exterior cosméticos, capas antiácaros para colchões e travesseiros e itens que aliviavam o dia a dia de quem convivia com alergias. A proposta era simples de explicar e revolucionária no contexto da época: reunir em um único lugar, com critério, tudo aquilo que antes só se conseguia em viagens internacionais e por sorte.
A aceitação foi imediata, e por uma razão que vai além do comércio. Pela primeira vez, os alérgicos e suas famílias tinham um lugar que falava a língua deles, que entendia a especificidade do problema e oferecia acolhimento junto com o produto. Sarah costuma dizer que entrou em um nicho até então inexplorado e que as pessoas se sentiram, finalmente, vistas. Esse sentimento de pertencimento, mais do que qualquer item de prateleira, foi o que fez a marca crescer.
De importadora a fabricante, a coragem de aprofundar A história poderia ter parado em uma loja bem-sucedida que vendia produtos importados, e já seria uma bela história. Mas Sarah e a irmã perceberam rápido os limites desse modelo. A importação de cosméticos no Brasil é cara, lenta e cheia de exigências, o que tornava os estoques instáveis e os preços altos demais para boa parte das famílias que mais precisavam. Em vez de aceitar essa limitação, as duas decidiram aprofundar a aposta. Apenas um ano depois da inauguração, a empresa começou a desenvolver a própria linha de produtos.
Nasceu então a primeira linha de fabricação nacional da marca, com cosméticos hipoalergênicos livres de parabenos, corantes e fragrâncias, formulados especificamente para peles sensibilizadas. Esse movimento transformou completamente a natureza do negócio. A Alergoshop deixou de ser uma intermediária que trazia soluções de fora e passou a ser uma criadora de soluções próprias, com testes, laudos de laboratório e aprovação dos órgãos competentes. O conhecimento de saúde que Sarah trazia da enfermagem encontrou ali a sua tradução mais concreta, porque agora ela não apenas selecionava produtos confiáveis, ela participava de fazê-los confiáveis desde a origem.
Quem entende profundamente o problema que resolve tende, mais cedo ou mais tarde, a querer controlar a qualidade da própria resposta.
Com o tempo, o catálogo próprio cresceu e passou a abranger muito mais do que cosméticos. A linha se estendeu a produtos de higiene, itens de limpeza para a casa, soluções para o ambiente e uma variedade de itens que respondem hoje pela maior parte do faturamento da empresa. A decisão de fabricar, e não apenas vender, foi o que deu à Alergoshop solidez e independência.
A vitória que amadureceu depois dos 40 A coluna desta edição reúne mulheres que venceram depois dos 40, e a trajetória de Sarah ilumina uma verdade que merece ser dita com clareza. A semente foi plantada quando ela tinha pouco mais de trinta anos, mas a árvore só deu os frutos mais altos na maturidade. Foi ao longo das décadas seguintes que a Alergoshop deixou de ser uma loja pioneira em São Paulo para se tornar uma referência nacional, com linhas próprias robustas, reconhecimento médico e uma estrutura capaz de chegar a famílias em todo o país.
O salto mais ousado veio justamente nessa fase madura. Em 2010, a empresa se associou à entidade que organiza o franchising no Brasil, e em 2012 abriu a sua primeira unidade franqueada, na cidade de Campinas. A escolha de crescer por franquias não foi um acaso. Sarah e a irmã perceberam que as lojas com o nome da marca vendiam mais e atendiam melhor do que os pontos multimarca, porque o público de alérgicos buscava um espaço especializado, com pessoas treinadas para entender as suas necessidades. Crescer, nesse caso, significava multiplicar o acolhimento, não apenas os pontos de venda.
A maturidade não foi o fim da ambição de Sarah. Foi o terreno em que ela floresceu de vez.
Repare na linha do tempo, porque ela desmonta um preconceito tenaz. Quando muita gente já considera que a hora das grandes decisões passou, Sarah estava abrindo um novo capítulo de expansão, estruturando uma rede e levando a marca a outras cidades. A filha Marina, cuja dor deu origem a tudo, chegou à vida adulta sem os sintomas que marcaram a infância, e o cuidado que começou como uma resposta doméstica havia se tornado um negócio que cuidava de milhares de pessoas.
Autoconhecimento, a arte de reunir as próprias partes Quando lemos essa história pela lente dos 8 Pilares do Empoderamento Feminino, o autoconhecimento aparece de uma forma um pouco diferente da que costumamos imaginar. Aqui ele não é só olhar para dentro e entender quem se é. É a capacidade de reconhecer que dentro de uma mesma mulher convivem mundos distintos, e que a maior potência muitas vezes mora exatamente na ponte entre eles.
Sarah carregava duas identidades que a vida tratava como separadas. De um lado, a profissional de saúde, com formação técnica, vocabulário científico e o hábito da observação rigorosa. Do outro, a mãe atravessada por um problema íntimo e urgente, que conhecia na própria pele o que era passar a madrugada cuidando de uma criança em crise. A maioria das pessoas mantém esses dois territórios apartados, como se a vida pessoal e a competência profissional pertencessem a planetas diferentes. A virada de Sarah foi enxergar que eles podiam, e deviam, se encontrar. Foi nessa intersecção que a Alergoshop ganhou vida, porque só quem tinha as duas coisas ao mesmo tempo poderia construir uma resposta tão precisa.
Há um segundo movimento de autoconhecimento nessa história, e ele tem a ver com coragem. Trocar uma carreira estável e respeitada pela incerteza de inaugurar um mercado que ninguém havia explorado exige um tipo de segurança interna que costuma chegar com a maturidade. Sarah não saltou no escuro por impulso. Ela saltou porque sabia o que carregava nas mãos, o conhecimento técnico, a vivência real do problema e a convicção de que aquela necessidade era verdadeira. A maturidade, longe de ter encurtado os seus horizontes, foi justamente o que lhe deu o aprumo para apostar.
Quem se conhece o suficiente para confiar nas próprias ferramentas encontra coragem onde os outros só enxergam risco.
A lição que Sarah nos deixa é direta. O seu maior negócio talvez não esteja em uma ideia completamente nova que você ainda precisa ter, mas no encontro entre aquilo que você já sabe fazer e aquilo de que você sente falta na própria vida. A sua experiência profissional e a sua dor pessoal não são duas histórias paralelas. Elas podem ser, juntas, o ponto de partida de algo que só você está em condições de criar.
Exercício prático: A Intersecção de Dois Mundos Esta história só cumpre o seu papel quando deixa de ser sobre Sarah e passa a ser sobre você. Por isso, antes de fechar a leitura, vale fazer um exercício simples, que reproduz no papel o movimento mental que deu origem à Alergoshop. Separe uma folha, divida-a ao meio em duas colunas bem distintas e reserve um tempo tranquilo para preenchê-las com honestidade.
Na primeira coluna, escreva o seu conhecimento técnico formal, aquilo que a sua profissão ou a sua trajetória lhe ensinaram a fazer bem. Pode ser a sua área de formação, uma habilidade que você desenvolveu ao longo de anos de trabalho, um saber prático que você domina sem nem perceber o quanto. Não tenha modéstia falsa nem cobre títulos grandiosos. Liste o que você sabe de verdade, mesmo que pareça óbvio demais para ter valor. Foi de um saber assim, a enfermagem, que Sarah tirou a base de tudo.
Na segunda coluna, escreva uma necessidade profunda ou um problema real do seu ambiente pessoal cotidiano. Algo que incomoda você ou alguém que você ama, uma falta que se repete, uma dor que você conhece de perto porque convive com ela. Não precisa ser dramático. Precisa ser verdadeiro. Para Sarah, essa coluna se chamava Marina, e a falta de produtos seguros para a pele e a respiração da filha.
Agora vem a parte que transforma o exercício em movimento. Olhe para as duas colunas ao mesmo tempo e tente construir uma ponte entre elas. Como o seu conhecimento técnico poderia ajudar a resolver, de forma prática, aquela necessidade íntima que você descreveu? Que produto, serviço, conteúdo ou solução nasceria desse encontro? Não busque a resposta perfeita logo de cara, porque a Alergoshop também começou pequena, importando o que já existia, antes de aprender a fabricar o próprio caminho. Busque apenas a primeira ideia honesta. O que importa, neste momento, é perceber que a sua vida profissional e a sua vida pessoal nunca foram mundos separados. O lugar onde elas se cruzam pode ser, justamente, o seu.
Antes de virar a página A história de Sarah Lazaretti tem a virtude de ser concreta do começo ao fim. Não há nela nenhum golpe de sorte, nenhuma fórmula mágica, nenhum atalho. Há uma enfermeira que conhecia o corpo humano, uma mãe que conhecia o sofrimento da própria filha e a decisão, tomada com os pés no chão, de não esperar que o mercado oferecesse o que ela mesma podia construir. O resto foi pesquisa, trabalho, sociedade com a irmã e a paciência de transformar uma loja em uma rede ao longo de anos.
Se há algo para levar desta leitura, talvez seja a ideia de que o conhecimento que você já tem vale mais quando encontra a sua experiência mais íntima. Sarah não precisou se reinventar do zero para fundar a Alergoshop. Ela precisou reunir as partes que sempre carregou e que a vida insistia em manter separadas. Você provavelmente também carrega, neste exato momento, um saber de um lado e uma necessidade do outro. A pergunta que fica, gentil e firme, é o que pode nascer no dia em que você decidir aproximar os dois.
