Quase toda mulher tem, em algum lugar, uma coisa parada em vinte por cento. Pode ser um curso comprado com entusiasmo em uma noite de domingo ou uma inscrição paga em janeiro que nunca chegou à segunda aula. O incômodo não tem relação com o dinheiro, até porque o custo foi absorvido pelo orçamento há muito tempo. A angústia vem de algo mais difícil de nomear, que aparece quando ela abre o aplicativo por outro motivo e encontra a barra parada no mesmo lugar de dois anos atrás.
Ela tem também uma pasta de receitas salvas que nunca fez, um plano de voltar ao pilates já remarcado quatro vezes e uma ideia de negócio que sobrevive em um caderno comprado justamente para isso. Nenhuma dessas coisas é grande o bastante para virar problema. Juntas, ocupam uma quantidade de espaço mental que ela não sabe medir e não consegue desligar.
O diagnóstico disponível para esse estado costuma ser o excesso de opções, pois vivemos cercadas de possibilidades e a abundância paralisa. Essa explicação é confortável, mas explica pouco, porque mulheres com pouquíssimas opções também adoeceram de angústia, e a história das gerações anteriores está cheia de vidas estreitas vividas com sofrimento silencioso. Já entendemos que alguma coisa mudou, mas talvez não seja apenas a quantidade.
O que mudou foi a permanência. Durante muito tempo, as portas se fechavam sozinhas, por idade, por geografia, por falta de dinheiro. O fechamento doía e havia luto, e depois do luto havia chão. Hoje quase nada se encerra de forma definitiva. Aos quarenta e sete ainda é possível mudar de carreira, e a mulher que nunca aprendeu inglês continua tecnicamente a três meses de distância de um aplicativo que promete resolver isso.
Toda possibilidade mantida viva pede manutenção, e a manutenção é cobrada em atenção.
Manter uma porta aberta parece gratuito, mas não é. Cada opção preservada exige que uma versão dessa mulher continue existindo em algum lugar: a versão que estuda, a versão que empreende, a versão que voltou a cuidar do corpo. Nenhuma dessas mulheres desapareceu, porque desaparecer exigiria uma decisão que nunca foi tomada. Por isso todas seguem em funcionamento no modo “mais ou menos”, e todas cobram seu lugar.
O cansaço que vem disso raramente consegue ser percebido de forma clara, porque, de fato, algumas ideias não entram na agenda de compromissos. Contudo, ele aparece no fim do mês, quando ela percebe quanto gastou em coisas compradas para versões suas que não estão operando. Aparece também no corpo, quando ela sente dificuldade de dormir sem antes revisar mentalmente o inventário do que ficou pendente.
A dificuldade de encerrar tem uma explicação que vale nomear: uma mulher que diz em voz alta que não fará o mestrado escuta, com frequência, que está se acomodando. Isso porque a cultura em que ela vive premia quem mantém tudo em aberto e chama isso de ambição, quando em muitos casos é apenas adiamento.
Fechar virou sinônimo de desistir, e por isso quase nenhuma porta se fecha.
O gesto de encerrar algo de propósito costuma ser bem menos dramático do que o medo que vem da ideia de perder uma possibilidade. Apagar o curso da lista de pendências, vender o equipamento comprado para um projeto que não aconteceu, dizer para alguém de confiança que aquela ideia não será tocada, pode trazer um alívio verdadeiro.
O alívio de encerrar não tem a ver com ter escolhido certo ou errado. Ele vem da leveza de ter uma versão a menos para sustentar.
A Economia da Coerência trata exatamente dessa distância entre a vida que uma mulher sustenta por dentro e a que ela mantém de pé por fora. Portas abertas em excesso são uma forma discreta de incoerência, porque boa parte delas pertence a vidas que ela já não deseja, conservadas apenas pelo medo do que significaria admitir a perda.
O que realmente importa fica quase impossível de enxergar enquanto tudo permanece igualmente possível. A pergunta mais útil talvez não seja o que fazer com tudo que está disponível, e sim o que já pode ser encerrado com dignidade. O importante costuma aparecer depois, ocupando o espaço que sobrou.
