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Voa Mulher
Histórias de Mulheres

Simone Biles provou que só persiste quem pode parar

Ao interromper uma final olímpica, a menina de 24 anos escancarou ao mundo uma pergunta sobre coragem.

Por Pesquisa Voa Mulher13 de outubro de 2026

No dia 27 de julho de 2021, no Centro de Ginástica de Ariake, em Tóquio, Simone Biles correu para o salto que abriria a apresentação dos Estados Unidos na final por equipes. Os Jogos haviam sido adiados um ano por causa da pandemia, e ela chegava como a maior ginasta da sua geração, com a expectativa de repetir as quatro medalhas de ouro conquistadas no Rio. O salto previsto tinha duas piruetas e meia. No ar, ela completou uma e meia e aterrissou com um desequilíbrio que nenhum espectador atento deixou de notar. Pouco depois saiu do ginásio com a equipe médica e voltou vestindo o agasalho, sem intenção de seguir na competição. Passou o restante da final ao lado das companheiras, aplaudindo cada aparelho, enquanto elas conquistavam a prata sem ela.

Nos dias seguintes, Simone abriu mão também da final individual geral e das finais de salto, barras assimétricas e solo. Parte do mundo saiu em sua defesa, e outra parte a acusou de abandonar a equipe, o país e a própria grandeza. Entre as críticas, voltava sempre uma das palavras mais pesadas do vocabulário esportivo, que é desistência. Ela respondeu pelas redes sociais poucos dias depois. Explicou que não tinha feito uma apresentação ruim e largado tudo, e que sua mente e seu corpo simplesmente não estavam em sintonia. “Literalmente não consigo distinguir o que é para cima e o que é para baixo”, escreveu.

A reação a Tóquio expôs uma assimetria que raramente percebemos em nós mesmas. Persistir é reconhecido como virtude no instante em que acontece, sem pedir explicação a ninguém. Interromper, ao contrário, precisa ser justificado, e mesmo depois de justificado continua sob suspeita.

Persistir é reconhecido como virtude no instante em que acontece. Interromper precisa ser justificado.

A menina que fez do impossível uma rotina

Simone Biles nasceu em Columbus, no estado de Ohio, em março de 1997, e cresceu no Texas, criada pelos avós, que a adotaram. Conheceu a ginástica aos seis anos, num passeio da creche a um ginásio, e o que veio depois redefiniu o próprio esporte. A partir de 2013 passou a vencer praticamente tudo o que disputava. Vários elementos da ginástica artística levam hoje o seu nome, porque ela foi a primeira a executá-los em competição oficial, e alguns são tão difíceis que poucas atletas no mundo sequer tentam reproduzi-los. Nos Jogos do Rio, em 2016, aos dezenove anos, ganhou quatro ouros e um bronze. Chegou a Tóquio como a ginasta mais medalhada da história dos campeonatos mundiais e como favorita absoluta em quase todas as provas.

Esse tamanho importa para entender o peso do que aconteceu. Quanto maior o talento, maior parece a obrigação de suportar, e o esporte tem uma memória longa de heroísmo construído sobre a dor. Nos Jogos de Atlanta, em 1996, a americana Kerri Strug saltou com o tornozelo lesionado para garantir o ouro por equipes e foi carregada no colo até o pódio. A imagem atravessou gerações como símbolo de entrega. Vinte e cinco anos depois, a melhor ginasta do mundo fez o movimento oposto diante das câmeras, e muita gente não teve repertório para enxergar ali outra coisa além de falha.

O que só ela sabia

O que Simone descreveu tem nome entre ginastas: twisties, uma perda súbita da noção de onde o corpo está durante o giro no ar. Para quem assiste, é um termo quase pitoresco. Para quem salta, significa girar a vários metros do chão sem saber em que posição vai cair, num esporte em que uma aterrissagem errada pode atingir o pescoço ou a cabeça. “Acho que vocês não percebem o quanto isso é perigoso em superfícies duras de competição”, escreveu ela na época. O público via uma atleta interrompendo a prova. Ela sabia que sua segurança estava em risco, e com ela a medalha da equipe.

De fora, é muito difícil distinguir desistência de discernimento, porque quem observa enxerga só o gesto de parar. Quem está dentro da experiência dispõe de informações que a arquibancada não tem, sobre o próprio corpo, sobre o risco real e sobre o que está em jogo além do placar. Julgar a decisão de alguém sem acesso a essas informações é julgar uma conta da qual conhecemos apenas o resultado final.

De fora, é muito difícil distinguir desistência de discernimento.

No último dia da ginástica em Tóquio, 3 de agosto, Simone voltou para a final da trave. Trocou a saída com piruetas por uma saída sem giros, mais simples do que qualquer coisa que costumava apresentar, e ganhou o bronze, uma conquista que ela mesma já apontou como uma das mais significativas da carreira. Ficou dois anos afastada das competições de elite. Voltou em 2023, venceu outro mundial e, nos Jogos de Paris, em 2024, conquistou três ouros e uma prata, somando onze medalhas olímpicas. No caso dela, parar foi justamente o que tornou possível voltar.

A conta que o aplauso não paga

Seria fácil transformar essa história numa nova regra, e ela não autoriza isso. Nem todo ato de parar é sábio. Muitas pessoas abandonam cedo demais, fogem de um medo que precisava ser enfrentado ou desistem de algo importante na primeira dificuldade real. A maturidade está em recusar que qualquer uma das duas opções, persistir ou parar, vire virtude automática, porque é justamente esse automatismo que nos impede de avaliar cada situação pelo que ela é.

A Economia da Coerência parte da ideia de que o que está em descompasso por dentro acaba aparecendo no fim do mês, no corpo e na alma. Na ginástica, esse descompasso tem uma forma quase literal, uma mente que já não reconhece o corpo que comanda. A posição deste texto é que a persistência só tem valor quando parar também é uma possibilidade real. Se interromper é impensável, continuar deixa de ser escolha e passa a ser obediência, ao aplauso, ao medo da crítica ou à imagem que os outros construíram de nós.

Se interromper é impensável, continuar deixa de ser escolha e passa a ser obediência.

Fora dos ginásios, o mesmo dilema aparece em escala doméstica. Muitas mulheres mantêm um negócio que as consome porque fechá-lo pareceria admitir fracasso diante da família que ajudou a abri-lo, e seguem pagando com a saúde uma conta que ninguém mais vê. Outras deixam um projeto no primeiro trimestre difícil, sem saber se estavam diante de um limite verdadeiro ou de uma dificuldade que precisava ser atravessada para que o projeto amadurecesse. As duas situações pedem a mesma coisa, uma avaliação honesta feita por quem tem as informações, antes que a opinião de fora decida por ela.

Para muitos, a imagem mais forte de Tóquio pode ter sido a do salto interrompido, mas para nós, aqui no Voa Mulher, o que marcou foi a mulher de agasalho, à beira do tablado, aplaudindo as companheiras numa final que ela tinha sido treinada a vida inteira para disputar. Para chegar àquele lugar foi preciso uma coragem que não aparece no placar.

A pergunta que a história de Simone Biles deixa é sobre a nossa própria régua: você saberia distinguir o momento em que persistir é coragem daquele em que parar exige mais coragem ainda? Poder de escolha também significa não entregar essa resposta ao aplauso, nem à crítica de quem assiste de fora.

Só quem vive a dor sabe o peso de carregá-la.

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