O Brasil tem 10 milhões de mulheres Empreendedoras. Precisamos cuidar delas.
Um manifesto sobre a realidade invisível das mulheres que sustentam famílias, negócios e a economia brasileira, sem rede de apoio.
Existe um número que deveria tirar o sono de qualquer pessoa que pensa em desenvolvimento econômico no Brasil: 10,4 milhões. Esse é o total de mulheres donas de negócio no país, segundo dados do SEBRAE com base na PNAD Contínua do 4º trimestre de 2024. É o maior número da série histórica e um recorde que, à primeira vista, parece motivo de celebração.
Mas quando olhamos mais de perto, o cenário muda e a matemática que não fecha.
Mulheres representam 52% da população brasileira em idade ativa. No entanto, somos apenas 34% dos empreendedores.
Se houvesse proporcionalidade, teríamos 15,8 milhões de mulheres empreendendo. Faltam 5,4 milhões. Para onde foram essas mulheres? Que barreiras as impediram de transformar suas ideias em negócios?
A resposta está em uma combinação perversa de fatores estruturais que o ecossistema de empreendedorismo brasileiro ainda não conseguiu (ou não quis) enfrentar.
Empreender por sobrevivência, não por escolha
Quando perguntamos às mulheres brasileiras porque empreendem, a resposta mais comum não é "vi uma oportunidade de mercado" ou "quero inovar". É algo bem mais urgente: 44% empreendem por necessidade, segundo o Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2024.
Quando se empreende por necessidade, o lema maior é a sobrevivência e as oportunidades ficam para trás.
Isso significa que quase metade das empreendedoras brasileiras não está construindo o negócio dos sonhos. Está tentando pagar as contas do mês. Elas estão buscando uma alternativa depois do susto de ser demitida, depois de não conseguir recolocação e depois de perceber que o mercado de trabalho formal não foi feito para acolhê-la, especialmente se for mãe.
E por falar em maternidade: 33% das empreendedoras brasileiras são mães solo, de acordo com a pesquisa "Empreendedoras e Seus Negócios 2025" do Instituto Rede Mulher Empreendedora. Uma em cada três mulheres que empreendem, cuidam dos filhos e administram a casa sozinhas.
Essas mulheres trilham uma jornada invisível
Há um dado do IBGE que deveria estar em toda discussão sobre produtividade no Brasil: mulheres trabalham, em média, 7,5 horas a mais por semana em trabalho doméstico e de cuidados a mais do que os homens. São quase 8 horas (praticamente um dia inteiro de trabalho) que não aparecem em nenhum contracheque, em nenhum balanço financeiro, em nenhuma métrica de produtividade, nem mesmo nos elogios de entregas corporativas.
Essa sobrecarga tem nome: “Economia do Cuidado” que recai desproporcionalmente sobre as mulheres.
Cuidamos dos filhos, dos pais idosos, da casa, das relações familiares. Somos as gestoras invisíveis de tudo que mantém uma família funcionando. E esse trabalho, essencial para a sociedade, não é remunerado nem reconhecido.
O que isso significa na prática? Significa sair de uma reunião às 18h e começar outra jornada: jantar, lição de casa, banho, organização da casa, planejamento do dia seguinte. Significa perder eventos de networking que acontecem em horários impossíveis para quem tem criança em casa. Significa ouvir "você precisa se dedicar mais" daquelas pessoas que têm alguém cuidando de tudo por elas.
Eu vivi isso. Há mais de duas décadas transito entre consultoria, assessoria a empresários e posições executivas, inclusive fora do Brasil. Além disso, sou mãe. E mesmo com toda essa trajetória, a jornada foi solitária. Se foi difícil para quem teve acesso a oportunidades, o que dizer das milhões que não tiveram?
Quando uma mulher decide empreender, e muitas vezes justamente para escapar de um mercado que não a acolhe, ela não abandona essas responsabilidades. Ela as acumula. E ainda assim, 58% das empreendedoras são chefes de família, acumulando o papel de protagonistas na economia doméstica. São as que pagam o aluguel, a escola, o mercado. 69,4% precisam sustentar diretamente outras pessoas com a renda que geram.
O negócio de uma mulher não é um projeto paralelo. É a base financeira de famílias inteiras.
O preço de empreender sendo mulher
Com tanta responsabilidade, seria de se esperar que o sistema oferecesse algum suporte, mas a realidade é outra... e assustadora.
O mesmo SEBRAE que nos traz os números recordes de mulheres empreendedoras também revela que elas ganham, em média, 32% menos que os homens na mesma condição. Em números absolutos: enquanto homens donos de negócio obtêm rendimento médio de R$ 3.793, as mulheres ficam com R$ 2.867.
A conta não fecha. Trabalhamos mais horas totais (considerando trabalho remunerado + doméstico), temos mais pessoas dependendo de nós, empreendemos muitas vezes por falta de alternativa... e ainda assim ganhamos menos.
E sabe o que acontece quando a renda não é suficiente?
A pesquisa do Instituto RME de 2025 traz outro dado alarmante: 72% das empreendedoras já tiveram o nome negativado em algum momento. Sete em cada dez, sim... e isso não é irresponsabilidade financeira, mas sim o sintoma de um sistema que não oferece as condições mínimas para que esses negócios prosperem.
As três barreiras que ninguém quer enfrentar
Depois de anos estudando esse cenário, desenvolvendo metodologias e conversando com centenas de empreendedoras em diferentes estágios e regiões do país, identifiquei três barreiras estruturais que se repetem com uma consistência perturbadora:
1. Falta de capacitação adequada e acessível
Não faltam cursos de empreendedorismo no Brasil. Isso é um fato. O que falta é um modelo de capacitação que considere a realidade dessas mulheres: horários flexíveis, linguagem acessível, conteúdo que dialogue com quem está começando do zero e precisa conciliar aprendizado com trabalho e família. A desigualdade regional agrava o problema.
Mas há algo ainda mais profundo:
Falta um tipo de capacitação que comece pelo autoconhecimento. Muitas mulheres empreendem sem clareza sobre seus próprios valores, propósitos e pontos fortes.
2. Ausência de rede de apoio
Empreender é, por natureza, uma jornada solitária, mas para mulheres, essa solidão é amplificada. Faltam espaços de troca genuína, mentoria acessível, comunidades que acolham sem julgar. Os homens têm seus clubes, suas rodas de negócios, seus happy hours onde deals acontecem. Embora essa realidade esteja mudando, as mulheres ainda ficam com boa parte da sobrecarga.
Enquanto predemos os encontros networking, estamos buscando as crianças na escola. Assim, ficamos de fora das conversas que importam, das indicações que abrem portas.
3. Exclusão tecnológica e digital fragmentado
As que conseguem superar a barreira do acesso à tecnologia encontram outro problema: um ecossistema digital fragmentado, com dezenas de ferramentas que não conversam entre si (pelo contrário, competem), cada uma com sua curva de aprendizado, cada uma com seu custo mensal. Para quem já tem o tempo escasso e a renda comprometida, essa fragmentação é paralisante.
A promessa da tecnologia, que sempre foi de simplificar, para muitas empreendedoras, só complicou mais.
Um chamado à ação
Eu poderia terminar este artigo com mais estatísticas. Poderia citar mais pesquisas, mais evidências do óbvio, mas a verdade é que os dados já estão aí, disponíveis, públicos, atualizados, mas pouco mudou.
O que me preocupa não são apenas os números, mas o que eles não mostram: muitas mulheres que desistiram. Muitas que tentaram, se frustraram e voltaram para empregos que não as satisfazem ou para lugar nenhum. Muitas que tinham potencial para construir negócios transformadores foram derrotadas pelo cansaço, pela falta de apoio, pela impossibilidade de estar em três lugares ao mesmo tempo.
Cada uma dessas histórias é uma perda coletiva. É talento desperdiçado. É potencial econômico que nunca se realizou. É uma inovação que não chegou ao mercado.
Falta intencionalidade.
Falta olhar para essas 10 milhões de mulheres como um potencial a ser destravado, não como um problema a ser resolvido.
Foi essa constatação que me levou a criar o Voa Mulher.
Depois de mais de duas décadas assessorando empresários dos mais diversos portes e segmentos e tendo contato com as mais diversas histórias, percebi que não existia um ecossistema que integrasse desenvolvimento pessoal, capacitação empreendedora, rede de apoio e tecnologia acessível para mulheres. Comecei a construí-lo em 2018, paralelamente a outras atividades profissionais, porque é assim que a maioria das mulheres empreende, não é mesmo? Acumulando jornadas.
O Voa Mulher é uma iniciativa potente, mas precisamos de um movimento maior:
Precisamos que empresas revisem suas políticas de fornecedores e incluam negócios liderados por mulheres.
Que governos desenhem programas que ofereçam continuidade, não apenas assistencialismo pontual.
Que investidores olhem para o empreendedorismo feminino como oportunidade, não como nicho de risco.
Que a sociedade reconheça o trabalho de cuidado e redistribua suas responsabilidades.
Porque a pergunta que fica é incômoda, mas necessária:
Quem cuida de quem sempre cuidou de todos nós?
Essas mulheres sustentam famílias, geram empregos, movimentam a economia local, pagam impostos, criam filhos... e fazem tudo isso, na maioria das vezes, sem rede de apoio, sem acesso a crédito justo, sem tempo para si mesmas.
Preciso deixar claro que esse relato não é sobre vitimização, mas sim sobre reconhecimento. Mas muito além disso, esse manifesto é principalmente, sobre criar as condições para que o empreendedorismo feminino deixe de ser uma estratégia de sobrevivência e se torne, de fato, uma alavanca de prosperidade.
As 10 milhões mulheres já estão aí. A pergunta é se o Brasil está pronto para apoiá-las.
Valeria Effgen é consultora de negócios, executiva, estrategista e fundadora do Voa Mulher — plataforma de desenvolvimento pessoal e empreendedorismo feminino. Atua há mais de 20 anos assessorando empresários e desenvolvendo uma metodologia proprietária de plano de negócios, com passagens por posições executivas no setor de energia. Também mãe e escritora.
Fontes: SEBRAE/PNADc 4º Trimestre 2024; GEM Brasil 2024 (SEBRAE/Anegepe); Instituto Rede Mulher Empreendedora - Pesquisa "Empreendedoras e Seus Negócios 2025"; IBGE - Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua 2024.