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    Gratidão

    Como ter gratidão de verdade e melhorar a sua vida através da prática diária

    Desvende a ciência por trás da ferramenta mais poderosa do coração e entenda como realmente aplicar a gratidão verdadeira no seu cotidiano, melhorando a sua qualidade de vida e as suas relações, inclusive a prosperidade como um todo.

    Voa Mulher
    12 de janeiro de 2026
    15 min de leitura
    Como ter gratidão de verdade e melhorar a sua vida através da prática diária

    Você já se pegou escrevendo "#grata" em uma foto perfeitamente editada, mas sentindo um vazio por dentro? Ou talvez tenha ouvido mil vezes que deveria "ser mais grata", mas quando tenta forçar esse sentimento, ele parece falso, superficial, como se você estivesse apenas repetindo palavras vazias?

    Se você já se sentiu assim, saiba que você não está sozinha. E mais importante: você não está errada. O problema não é com você. O problema é que a palavra "gratidão" foi banalizada, transformada em mais um item de uma lista interminável de coisas que "deveríamos" fazer para sermos melhores, mais felizes, mais iluminadas. Mas a gratidão verdadeira é algo completamente diferente. Ela não é um sentimento de euforia constante ou uma obrigação moral. Ela é uma das ferramentas mais poderosas que você possui para transformar sua vida de dentro para fora.

    Neste artigo, vamos caminhar juntas por um território que vai muito além dos clichês. Vamos explorar sete aspectos fundamentais da gratidão autêntica: primeiro, o que ela realmente é (e o que definitivamente não é); segundo, como ela nos ensina humildade ao reconhecer nossa interdependência; terceiro, como ela reprograma literalmente nosso cérebro; quarto, como praticar gratidão nos momentos mais difíceis; quinto, como ela nos liberta da armadilha da comparação; sexto, como transformá-la em um hábito diário; e sétimo, por que cultivá-la é um ato de coragem. Prepare seu coração para uma jornada de descoberta.

    1. Gratidão de verdade: a ferramenta que muda sua perspectiva

    Vamos começar diferenciando duas coisas que frequentemente se confundem: gratidão autêntica e positividade tóxica. A positividade tóxica é aquela voz que diz "apenas pense positivo" quando você está passando por uma dor real. Ela nega o sofrimento, minimiza suas dificuldades e te faz sentir culpada por não estar feliz o tempo todo. É sufocante e, no fundo, você sabe que é mentira.

    A gratidão verdadeira é completamente diferente. Como explica a American Psychological Association, "a gratidão não é uma negação das dificuldades; é uma postura poderosa e intencional contra o desespero" [1]. Ela não pede que você finja que a dor não existe. Ela coexiste com a dor. É a capacidade de, mesmo em um dia difícil, ainda conseguir notar algo pelo qual você pode ser grata.

    O maior especialista mundial no assunto, Dr. Robert A. Emmons, da Universidade da Califórnia, passou décadas estudando a gratidão. Ele descobriu que ela é um processo de duas etapas. Primeiro, reconhecemos que recebemos algo bom. Segundo, reconhecemos que a fonte desse bem está fora de nós mesmas [2]. E é essa segunda etapa que muda tudo.

    Quando você reconhece que parte do seu bem-estar vem de fatores externos — pessoas, oportunidades, até mesmo sorte — você está praticando algo profundo. Você está olhando para além do seu próprio ego e admitindo algo que nossa cultura individualista odeia: você não é completamente autossuficiente. E sabe de uma coisa? Isso não te torna fraca. Te torna humana. E te conecta com o mundo de uma forma que nenhuma conquista solitária jamais conseguirá.

    Estudos de neuroimagem mostram que quando você sente gratidão, regiões específicas do seu cérebro se acendem — áreas ligadas à empatia, à compreensão dos outros e à tomada de perspectiva [3]. Em outras palavras, praticar gratidão é literalmente um exercício que treina seu cérebro a ver o mundo de forma mais conectada e menos centrada apenas em você.

    2. A humildade de reconhecer: você não chegou aqui sozinha

    Vamos ser honestas: nossa cultura adora a narrativa da "self-made woman", a mulher que conquistou tudo sozinha, que não deve nada a ninguém. É uma história poderosa e sedutora. Mas também é, em grande parte, uma ilusão. E essa ilusão nos rouba algo precioso: a capacidade de sentir gratidão verdadeira.

    A gratidão autêntica nos convida a fazer um exercício de humildade. Não a humildade que te diminui, mas a humildade que te expande ao reconhecer a vasta rede de contribuições que sustentam sua vida. Desde o agricultor que cultivou o alimento no seu prato até a professora que acreditou em você quando você mesma duvidava, desde o engenheiro que projetou a infraestrutura que te fornece água até a amiga que te ouviu em um momento de crise.

    Admitir essa interdependência pode ser desconfortável no início. Mas é também profundamente libertador. Pesquisas mostram que a gratidão fortalece os laços sociais ao ativar a liberação de ocitocina, o "hormônio do amor", que desempenha um papel vital na confiança e na conexão [4]. Quando você expressa gratidão, não está apenas sendo educada. Você está enviando um sinal neurológico poderoso que fortalece o relacionamento e te lembra de que você não está sozinha nessa jornada.

    "A gratidão é uma afirmação da bondade. Afirmamos que existem coisas boas no mundo, presentes e benefícios que recebemos. [...] Quando somos gratos, reconhecemos que as fontes dessa bondade estão fora de nós mesmos." - Dr. Robert A. Emmons

    Exercício do coração: o mapa da sua rede de apoio

    Reserve 15 minutos de silêncio. Pegue uma folha de papel e, no centro, escreva "Meu Bem-Estar Hoje". Agora, desenhe ramos saindo desse centro, cada um representando uma pessoa, um sistema, uma circunstância que contribuiu para que você estivesse aqui, agora, viva e capaz de ler estas palavras.

    Vá além do óbvio. Pense na professora que te inspirou há anos, no autor do livro que mudou sua perspectiva, no sistema de saneamento da sua cidade, na sorte de ter nascido em um período de relativa paz. Este exercício não visa diminuir suas conquistas. Visa expandir sua consciência sobre o vasto ecossistema que as torna possíveis. E quando você vê isso, algo muda dentro de você.

    3. Reprogramando seu cérebro: do foco na falta para a presença do que existe

    Aqui está uma verdade sobre o cérebro humano que você precisa conhecer: ele foi programado para focar no negativo. Nossos ancestrais precisavam estar hipervigilantes a perigos para sobreviver. Aquela que notava a ameaça primeiro vivia para contar a história. Mas aquela que parava para apreciar o pôr do sol bonito enquanto um predador se aproximava... bem, ela não deixou descendentes.

    Esse mecanismo, embora útil na savana, nos deixa hoje com um viés de negatividade. Você naturalmente presta mais atenção ao que deu errado do que ao que deu certo. À crítica, não aos elogios. Ao que falta, não ao que está presente. E esse viés pode sugar toda a alegria da sua vida se você deixar.

    A gratidão é o antídoto. Ela é o esforço consciente de treinar seu cérebro a notar o que está presente e funcional, não apenas o que está quebrado ou faltando. E aqui está a parte fascinante: isso não é apenas uma mudança de atitude. É uma reestruturação neurológica real.

    Pesquisas lideradas por neurocientistas mostraram que a prática consistente da gratidão pode levar a um aumento da densidade de massa cinzenta em áreas do cérebro responsáveis por regular emoções e tomar decisões ponderadas [5]. Seu cérebro literalmente muda de forma. Você se torna fisicamente mais apta a manter o foco no positivo e a regular suas emoções.

    A gratidão não ignora os problemas. Ela simplesmente tira o holofote exclusivo do que está errado e ilumina também o que ainda funciona. É a capacidade de, em um dia ruim, ainda ser grata pelo café quente, pela funcionalidade do seu corpo ou pela simples presença de um teto sobre sua cabeça. É um ato de equilibrar a balança da percepção. E esse equilíbrio muda tudo.

    4. A gratidão difícil: encontrando luz na escuridão

    Agora vamos falar sobre a gratidão que realmente testa quem somos. A gratidão fácil é aquela que sentimos quando tudo está indo bem. Quando você recebe uma promoção, quando seu relacionamento está florescendo, quando sua saúde está em dia. Essa gratidão é natural e espontânea.

    Mas a gratidão que transforma, a que forja resiliência de verdade, é a gratidão difícil. É aquela que você pratica nos momentos de profunda dificuldade. E não, não estou falando de ser grata pela tragédia. Estou falando de ser capaz de encontrar algo pelo qual ser grata apesar da tragédia.

    Estudos sobre crescimento pós-traumático mostram que a capacidade de encontrar benefícios ou aprendizados em experiências adversas é um dos principais preditores de uma recuperação psicológica saudável [6]. A gratidão, neste contexto, funciona como um mecanismo de reenquadramento. Ela te permite perguntar: "O que esta situação, por mais dolorosa que seja, me ensinou? Que forças internas eu descobri? Que relacionamentos se fortaleceram?"

    Uma meta-análise impressionante publicada no Journal of Traumatic Stress encontrou uma correlação negativa significativa entre gratidão e a severidade do Transtorno de Estresse Pós-Traumático [7]. Pessoas com maior disposição para a gratidão tendem a experimentar menos sintomas de TEPT após eventos traumáticos. A gratidão atua como um "amortecedor psicológico", ajudando a processar a dor sem ser consumida por ela.

    Deixe-me ser clara: isso não significa que você deve se sentir grata por ter sofrido. Significa que, mesmo no sofrimento, você ainda pode encontrar âncoras de gratidão que te impedem de afundar completamente. Pode ser a gratidão pela sua própria força em ter sobrevivido. Pela amiga que segurou sua mão. Pela lição dolorosa que te tornou mais sábia. Pela descoberta de uma resiliência que você nem sabia que possuía.

    Exercício do coração: a releitura resiliente

    Pense em um desafio significativo que você superou no passado. Em vez de focar apenas na dor da experiência, pegue um caderno e escreva sobre os recursos que você utilizou para atravessá-la:

    • Forças internas: Que qualidades você descobriu em si mesma? Coragem, perseverança, criatividade, compaixão?

    • Apoio externo: Quem esteve ao seu lado? Que recursos (livros, terapia, comunidade, fé) te ajudaram?

    • Aprendizados adquiridos: Que lições valiosas você carrega consigo hoje por causa daquela experiência?

    Este exercício não apaga a dor. Mas ele treina seu cérebro a procurar por recursos e crescimento, mesmo em meio à adversidade. E essa é a base da resiliência verdadeira.

    5. O fim da comparação: encontrando paz com o seu "suficiente"

    Vamos falar sobre uma das maiores ladras de alegria da nossa era: a comparação social. E vamos ser honestas, as redes sociais transformaram isso em uma epidemia. Você abre o Instagram e vê a vida aparentemente perfeita de outras mulheres. A casa impecável, o corpo esculpido, o relacionamento de conto de fadas, a carreira meteórica. E algo dentro de você sussurra: "Por que minha vida não é assim?"

    A inveja foca no que o outro tem e você não. A gratidão faz exatamente o oposto: ela volta o foco para o que você já possui. E essa mudança de foco é revolucionária. Pesquisas mostram que pessoas materialistas tendem a ser menos felizes, em parte porque têm mais dificuldade em sentir gratidão pelo que possuem, estando presas em um ciclo de desejo constante [8].

    A gratidão quebra esse ciclo. Ao focar no que você tem, você ativa o sistema de recompensa do seu cérebro, liberando neurotransmissores como a dopamina, que gera uma sensação genuína de prazer e satisfação [9]. E aqui está o fascinante: essa satisfação vem de apreciar o que já existe, não da busca incessante por algo novo.

    Praticar gratidão não significa abandonar suas ambições ou seus sonhos. Significa que sua busca por crescimento vem de um lugar de plenitude, não de um vazio desesperado. Você pode desejar uma promoção no trabalho e, ao mesmo tempo, ser profundamente grata pelo emprego que tem hoje. Você pode querer melhorar sua saúde e, simultaneamente, agradecer pelo corpo que te carrega todos os dias. Essa dualidade é a marca de uma mente madura e de um coração em paz.

    6. Transformando gratidão em hábito: o músculo que se fortalece com a prática

    A gratidão autêntica não é um evento único, como um raio que te atinge e te transforma instantaneamente. Ela é um hábito, uma prática, um músculo que se fortalece com o uso consistente. Assim como ir à academia fortalece os músculos do corpo, a prática deliberada da gratidão fortalece as vias neurais da percepção positiva.

    O estudo clássico de Emmons e McCullough (2003) demonstrou isso de forma conclusiva. Participantes que foram instruídos a escrever semanalmente sobre coisas pelas quais eram gratos relataram maior otimismo, sentiram-se melhor sobre suas vidas e até se exercitaram mais e tiveram menos sintomas físicos do que os grupos de controle [10]. A gratidão não apenas os fez sentir melhor emocionalmente, mas também melhorou sua saúde física.

    Exercício do coração: o diário de gratidão que realmente funciona

    Você já tentou fazer um diário de gratidão e desistiu porque parecia mecânico e sem sentido? Provavelmente porque você estava fazendo da forma errada. Aqui está o protocolo baseado em pesquisa que realmente transforma:

    1. Seja específica: Em vez de "sou grata pela minha família", escreva "sou grata pela conversa de 20 minutos que tive com minha irmã hoje, onde me senti verdadeiramente ouvida e apoiada". A especificidade torna a emoção mais vívida e real.

    2. Foque nas pessoas: A gratidão é mais poderosa quando direcionada a pessoas. Tente focar em como as ações de alguém impactaram positivamente sua vida. Isso fortalece seus relacionamentos e te lembra de que você não está sozinha.

    3. Pense em subtração: Imagine como sua vida seria sem certas coisas ou pessoas positivas. Essa técnica de "subtração mental" aumenta drasticamente o apreço pelo que você tem. Por exemplo: "Como seria minha vida se eu não tivesse acesso à educação?" ou "Como eu me sentiria se não tivesse essa amiga?"

    4. Sinta a emoção: Não apenas pense, mas permita-se sentir a gratidão em seu corpo. Note a sensação de calor no peito, o relaxamento nos ombros, talvez até lágrimas de reconhecimento. Essa incorporação da emoção é crucial para a mudança neurológica.

    5. Varie a frequência: Pesquisas sugerem que para algumas pessoas, um diário de gratidão 1 a 3 vezes por semana é mais eficaz do que diariamente, pois evita que a prática se torne mecânica. Encontre o ritmo que funciona para você e que mantém a prática fresca e significativa.

    Com o tempo, você notará que a prática transborda do papel. Você começará a sentir gratidão em tempo real, pelo sabor do seu café, pela gentileza de um estranho, pela sua música favorita tocando no rádio. A gratidão se torna não algo que você faz, mas algo que você é.

    7. Gratidão como coragem: o ato revolucionário de declarar que a vida é valiosa

    Vamos encerrar com uma verdade que precisa ser dita: ter gratidão de verdade, em um mundo que constantemente nos diz que não somos suficientes e que precisamos de mais, é um ato de rebelião silenciosa. É um ato de coragem.

    Vivemos em uma cultura que lucra com a nossa insatisfação. Anúncios nos dizem que precisamos de um corpo diferente, uma casa maior, um carro mais novo, um relacionamento mais emocionante. A mensagem subliminar é sempre a mesma: você não é suficiente como está, e sua vida não é suficiente como é. Compre isso, faça aquilo, seja outra pessoa, e então, talvez, você seja feliz.

    A gratidão diz não a essa narrativa. Ela declara, corajosamente, que apesar das falhas, das dores e das incertezas, a vida ainda oferece elementos que a tornam profundamente valiosa. Não porque você está ignorando a escuridão, mas porque você escolhe acender uma vela e apreciar sua pequena, porém poderosa, luz.

    A gratidão autêntica é uma habilidade, uma prática e uma escolha. É a decisão consciente de treinar sua mente para ver a abundância que já existe, para reconhecer a teia de conexões que te sustenta e para encontrar força e aprendizado mesmo nas circunstâncias mais difíceis. Ao fazer isso, você não está apenas adotando uma atitude positiva. Você está ativamente remodelando seu cérebro, fortalecendo sua resiliência e construindo uma fundação inabalável para uma vida de contentamento e propósito genuínos.

    Então, querida, se você chegou até aqui, deixe-me te convidar a algo: comece pequeno. Não tente forçar uma gratidão que você não sente. Em vez disso, apenas note uma coisa hoje. Uma única coisa pela qual você pode, honestamente, ser grata. Pode ser algo minúsculo. O fato de que você acordou. Que seus pulmões estão funcionando. Que alguém te sorriu. Que você tem água limpa para beber.

    Comece aí. E deixe essa pequena semente de gratidão crescer, no seu próprio tempo, no seu próprio ritmo. Porque a jornada de volta para a gratidão verdadeira não é uma corrida. É um retorno gentil para casa, para o seu coração, para a vida que já está aqui, esperando para ser plenamente vivida.


    Referências

    1. Kawahara, D. (2025). Practicing gratitude during difficult times. Monitor on Psychology, 56(7). American Psychological Association.

    2. Emmons, R. A. (n.d.). Gratitude and Well-Being. Gratitude Works, UC Davis.

    3. Fox, G. R., et al. (2015). The neural correlates of gratitude. Frontiers in Psychology.

    4. Algoe, S. B., & Way, B. M. (2014). Evidence for a role of the oxytocin system, indexed by genetic variation in CD38, in the social bonding effects of expressed gratitude. Social Cognitive and Affective Neuroscience, 9(12), 1855–1861.

    5. Zahn, R., et al. (2014). The neural basis of human social values: evidence from functional MRI. Cerebral Cortex, 24(3), 654-663.

    6. Vieselmeyer, J., et al. (2017). The role of resilience and gratitude in posttraumatic stress and posttraumatic growth. Journal of Traumatic Stress, 30(1), 62-69.

    7. Portocarrero, F. F., et al. (2020). Giving thanks is associated with lower PTSD severity: A meta-analytic review. Journal of Happiness Studies, 21, 2645–2661.

    8. Jans-Beken, L., & Tummers, L. (2018). Why Is Gratitude So Hard for Some People? Grateful.org.

    9. Travers, M. (2024). A Psychologist Explains How To Hack Your Brain's Gratitude Circuit. Forbes.

    10. Emmons, R. A., & McCullough, M. E. (2003). Counting blessings versus burdens: An experimental investigation of gratitude and subjective well-being in daily life. Journal of Personality and Social Psychology, 84(2), 377–389.